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terça-feira, 28 de maio de 2013

BREVE VIDA E OBRA DE SOFIA, A CRISTÃ

Sofia, filha de um músico e de uma atriz de novela, achava sua mãe um pouco careta e seu pai um tanto quanto insaciável. Ela gostava de meninas e seus pais a compreendiam equilibradamente por isso. Mamãe ficava mais preocupada, já papai não via mal algum. Era amante das artes, admirava mamãe e papai por suas atividades, mas se dedicava mesmo às pinturas, gravuras e quadrinhos. De papai puxara a rebeldia, só que uma rebeldia declarada e atuada, não como a escamoteada do velho; de mamãe, a firmeza e a ternura, tal qual.
Era 07/04/2042. Sofia completava seus 25 anos de idade. Era também dia de passeatas e protestos, pois o governo, que se dizia trabalhista, acabava de anunciar que privatizaria os serviços de coleta, filtragem e distribuição de ar puro. Cheios de ironia e sarcasmo, os quadrinhos de Sofia circulavam pelas redes sociais com boa aceitação e críticas dos mais diversos matizes. "Falem bem falem mal, falem de mim", gostava de pensar Sofia. O grande conglomerado midiático até tentava, mas não conseguia manter-se indiferente às alfinetadas dela. As redes sociais, na internet, já haviam alcançado um status democrático e popular grande o suficiente para que ela não passasse despercebida.
"Mais uma contradição do capital", cansava-se de ouvir Sofia de seu dinossáurico pai. "A internet, tão necessária à reprodução cada vez mais ágil do capitalismo, e sua irreversível e intrínseca capacidade democratizante, compromete o próprio capitalismo, filha. Mais uma prova de que Marx estava certo ao profetizar: o limite do capital é o próprio capital". Mamãe já não retrucava mais o velho e aposentado músico, pois percebia que Sofia o ouvia mais por educação que qualquer outra coisa; confiava e compartilhava sua preocupação da aparente senilidade dele, com a filha, e estava certa que sua fé em Deus e sua militância cristã a credenciavam e protegiam perante qualquer baboseira que ele falasse. Porém, mal sabia mamãe que Sofia achava papai muito moderado, isso sim.
Aparentemente conflituosa, a relação de seus pais era sumariamente baseada e sustentada pelo amor. Sofia entendia e condensava essa virtude como numa síntese dialética, sem deixar as outras virtudes dos pais de lado. No fundo, era mais radical que seu pai, não à toa ele a admirava tanto, bem como mais protetora que sua mãe, sendo igualmente tão admirada por ela. "O demônio do capital", pensava e às vezes palestrava Sofia a seus amigos, nas reuniões dos grupos da igreja, "é a analogia perfeita à mão invisível de Adam Smith; bem como a perfeita contradição do Reino de Deus e seus valores de amor, justiça e fraternidade. Aquele é o foco do nosso combate, este é a razão da nossa militância!"
A igreja protestante que Sofia frequentava não tinha espaço físico algum. "Nada de paredes próprias", era o lema da comunidade, pois entendiam seus membros que Jesus trouxera a liberdade em todos os sentidos, a toda humanidade. Não tinham nenhum líder, bispo, apóstolo, comissionado, déspota, oportunista, missionário ou pastor específico. Todos liam e estudavam as Escrituras Sagradas à luz de uma reflexão contextualizada à época de sua escrita, comparada ao hodierno. Reuniam-se em espaços públicos ou em casas, debatendo e praticando o amor, em resposta à maior expressão atual de pecado da humanidade, o capitalismo e toda sua lógica intrínseca: o egoísmo, a usura, a ganância, a indiferença e a dominação de poucos sobre muitos. Tinham o cuidado básico de não apenas empreender práticas meramente assistencialistas, incorrendo na forte tentação de estagnarem-se, conformadas tão somente nelas. Era uma igreja que se inseria politicamente no âmbito das ideias cristãs libertárias, respeitando a necessária condição laica do Estado, que toda a comunidade aprendera a reivindicar também. Pregavam a tolerância sexual, a abolição da supremacia da propriedade privada, a tolerância e ecumenismo religiosos, bem como a importância do caráter público, democrático e de qualidade das necessidades básicas: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Era uma igreja viva em todos os sentidos, e em momento algum ela se reivindicava exclusiva ou sectária. Não ousavam deter o monopólio da verdade, muito menos arrancá-la à força com estúpidas interpretações bíblicas. Enfim, uma rara igreja de Cristo.
Mas eram tempos difíceis. Em paralelo a tanta liberdade de consciência religiosa, vivida por Sofia, em seu microcosmos, seitas eclesiásticas e para-eclesiásticas cresciam exponencialmente em número e ignorância. Uma tal bancada evangélica, já completamente fadada ao fisiologismo e totalmente submissa a Mamom (o demônio do capital) não tinha escrúpulo algum em se tornar aquilo que Jesus tanto criticara: sepulcros caiados. A desigualdade social, muito bem demonstrada pela mais discrepante taxa histórica de distribuição de renda, era gritante. O Estado assumia os interesses dos grandes capitalistas e rentistas sem nenhum pudor. E não por menos, a bancada evangélica que envergonhava o próprio evangelho, desviava a importância do debate político para questões moralistas, escondendo assim o mau cheiro exalado de suas próprias entranhas. "Não ao aborto! homossexualismo é pecado! castidade acima de tudo! mulheres devem ser submissas aos homens! toda liderança é instituída por Deus!" Essas e outras representavam as ridículas e anacrônicas pautas reivindicatórias daqueles que no fundo só pensavam em seus próprios bolsos, aproveitando-se de uma teia intrincada de interesses difusos e abocanhando uma parcela da gerência do poder sobre o povo que representavam.
Sofia era consciente do verdadeiro inimigo. Sabia que o pobre fiel que soletrava, verso a verso o jogral da intolerância estúpida, não era culpado. Muitas vezes até compreendia que seus líderes e representantes eram igualmente presos a uma lógica intrínseca, arraigada e abstrata, bastando a estes, tão somente reproduzir tal visão de mundo. Por estas ocasiões de reflexão, sempre lhe vinha à mente um maravilhoso texto bíblico, que, não à toa, tratava-se de palavras proferidas pelo próprio Jesus: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Jesus disse isso, pois os fariseus já se consideravam livres por serem descendência de Abraão; estavam presos á sua intrínseca, abstrata e arraigada lógica soteriológica. Era justamente a contextualização dessa lógica, seu significado para os dias de hoje, que deveria ser combatido. Essa lógica dominadora e escravizante, representada no atual sistema e em todos seus anti-valores individualistas e mesquinhos, que deveria ser desmascarada.
Mas perante toda essa conjuntura, Sofia não tinha medo. A força, firmeza e coragem que faltaram a seu pai, mas que herdou de mamãe, punham-na em marcha. No dia de seu aniversário, sai à rua, grita por justiça, ergue bandeiras! Ameaças de morte não a detém, são como presentes de aniversário dos convidados à sua festa. Continua com sua arte e com sua luta, pois sabe também que estas dádivas vêm de Deus e devem edificar toda sua criação. Tem consciência que pode até não vir contemplar a terra prometida, mas ela já foi prometida. Diante de todo o cenário posto, ela canta e estufa o peito, como num destoado de toda a verborragia açucarada, proferida pelos fariseus da atualidade, a seguinte canção, que já não consta mais nos modernos hinários: "Aos poderosos eu vou pregar, aos homens ricos vou proclamar, que a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus!" E com esperança, mesmo os céus e a terra indicando o contrário, Sofia também canta mais uma esquecida canção, que profere a maior das profecias: "O dia da vitória, em que virá o Salvador, sim Jesus Cristo, o Senhor, virá nas nuvens para me levar. Se tornará verdade tudo o que sempre sonhei, tristezas eu jamais verei e toda lágrima do meu olhar, ele enxugará!" (autor: Walter H. Diesel)

terça-feira, 7 de maio de 2013

MÍDIA NOSSA DE CADA DIA



A comunicação social, vulgarmente subdividida em mídia televisiva, sonora e impressa, é um serviço de utilidade pública. Assim sendo, é passível de concessão pública, ou seja, o Estado pode conceder a prerrogativa de exploração e gestão de tal serviço à iniciativa privada; além do mais, por ser considerada uma atividade insustentável do ponto de vista econômico, carece também de verba pública. Pois bem, para tal empreendimento, devem ser obedecidos alguns critérios básicos que estão gravados na nossa sagrada Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, principalmente entre os artigos 220 e 224. Como a Carta Magna estabelece tão somente os critérios, faz-se necessária a criação de lei(s) que regule(m) este bem público. Vale lembrar também que por ser um "bem público", o mesmo está sujeito à vontade do povo.
Mas não nos preocupemos com isso; tal serviço de utilidade pública já se encontra em boas mãos. Há quem diga que, em grande parte, esse nicho lucrativo se baseia em um arcabouço de leis arcaicas e concentra-se, mais especificamente, em mãos de apenas 10 famílias abastadas, cheias de interesse egoístas e anti-populares, formando assim um oligopólio lucrativo e manipulador; mas convenhamos, é pura inveja da enfraquecida e ineficiente concorrência, certo? É notório e sabido que esses atuais barões da mídia tupiniquim sempre foram conhecidos como bravos guerreiros do interesse nacional e promotores da justiça social e dos direitos humanos. Constituídos e destacados, principalmente nos tempos de escuridão e autoritarismo ditatoriais, sempre combateram a censura, almejaram a democracia e a liberdade, nunca foram coniventes com os atos nefastos desse Leviatã diabólico, tampouco financiavam ou emprestavam seus próprios automóveis em favor dos serviços secretos de tortura, silenciamento, ou “simples” arrancamentos de unhas daqueles que eram contrários ao regime de restabelecimento da ”Ordem e do Progresso”.
Mas os tempos mudaram; aquele que inventou a tristeza teve a firmeza (pelo menos aparente, bem demorada e sanguinária) de a desinventar. Hoje vivemos em pleno gozo de nossas faculdades democráticas, graças aos nossos bravos guerreiros da comunicação. Nos é facultado novamente o poder de eleger nossos próprios representantes executivos e legislativos; só os judiciários que não, pois são deuses da técnica jurídica e não devem se resignar à estúpida vontade do povo. Mas pra quê?! Isso é o de menos! Já provocamos até impeachment! Toda a nação nas ruas, de caras pintadas, bradando e exalando democracia! E tudo isso nós vimos, ouvimos e lemos, pois nossos heróis, que hoje meritocraticamente desfrutam de seu luxuoso e merecido descanso, nos deixavam sempre a par de tudo. Até hoje eles continuam nos enchendo de boa cultura, informação crítica e reflexiva. Portanto fiquemos atentos a tudo que estes grandes homens tem pra nos dizer. São passíveis de total e completa confiança. Suas opiniões devem ser gravadas em nossos corações. Na verdade, eles são tão generosos que nos poupam do trabalho reflexivo. Com suas caras, bocas e uma pitada de photoshop, já nos mantém por dentro do que é certo e e errado, do bem e do mal. E depois de toda essa carga informativa, nos diverte com histórias altamente emotivas, subdivididas em vários episódios; apresentando-nos casos hilariamente esdrúxulos; e brincando honesta e cuidadosamente com nosso imaginário de sucesso e prosperidade. Muito pão e circo! Ah, a catarse da diversão, da sensação, da emoção! Não á toa são detentores de grande maioria da comunicação social do país, certamente suaram a camisa pra isso. Não coloquemos a lisura destes grandes homens e mulheres em xeque.
Mas atenção! Volta e meia, a perfeita ordem da sociedade pode se encontrar ameaçada. Pode ser que surjam meios de comunicação alternativos com ideias perigosas, ou que nosso atual governo pseudo-trabalhista, autoritário e retrógrado queira promover a “censura”. Pode ser também que surjam questionadores e críticos ao atual modelo de regulamentação das comunicações, como este que podemos conferir no link entre parênteses (http://www.correiocidadania.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=8312:manchete260413&catid=72:imagens-rolantes), ou então que algumas entidades de organização civil queiram igualmente tolher a liberdade de expressão através de um projeto de lei absurdo, como o que pode ser conferido através deste sítio eletrônico entre parênteses também (http://www.paraexpressaraliberdade.org.br/). Portanto, fiquemos atentos a essas e a qualquer outra ofensiva mais séria, por parte destes algozes de uma democracia, a duras penas conquistada por nossos bravos guerreiros midiáticos. Não permitamos que estes baderneiros ponham abaixo nossa soberana democracia; legado supremo de uma tão batalhada autonomia midiática, simbolizada num instrumento pequeno em proporções, porém grande e decisivo para o exercício de nosso poder de escolha: o controle remoto.