Sofia, filha de um músico e de uma atriz de novela, achava sua mãe um pouco careta e seu pai um tanto quanto insaciável. Ela gostava de meninas e seus pais a compreendiam equilibradamente por isso. Mamãe ficava mais preocupada, já papai não via mal algum. Era amante das artes, admirava mamãe e papai por suas atividades, mas se dedicava mesmo às pinturas, gravuras e quadrinhos. De papai puxara a rebeldia, só que uma rebeldia declarada e atuada, não como a escamoteada do velho; de mamãe, a firmeza e a ternura, tal qual.
Era 07/04/2042. Sofia completava seus 25 anos de idade. Era também dia de passeatas e protestos, pois o governo, que se dizia trabalhista, acabava de anunciar que privatizaria os serviços de coleta, filtragem e distribuição de ar puro. Cheios de ironia e sarcasmo, os quadrinhos de Sofia circulavam pelas redes sociais com boa aceitação e críticas dos mais diversos matizes. "Falem bem falem mal, falem de mim", gostava de pensar Sofia. O grande conglomerado midiático até tentava, mas não conseguia manter-se indiferente às alfinetadas dela. As redes sociais, na internet, já haviam alcançado um status democrático e popular grande o suficiente para que ela não passasse despercebida.
"Mais uma contradição do capital", cansava-se de ouvir Sofia de seu dinossáurico pai. "A internet, tão necessária à reprodução cada vez mais ágil do capitalismo, e sua irreversível e intrínseca capacidade democratizante, compromete o próprio capitalismo, filha. Mais uma prova de que Marx estava certo ao profetizar: o limite do capital é o próprio capital". Mamãe já não retrucava mais o velho e aposentado músico, pois percebia que Sofia o ouvia mais por educação que qualquer outra coisa; confiava e compartilhava sua preocupação da aparente senilidade dele, com a filha, e estava certa que sua fé em Deus e sua militância cristã a credenciavam e protegiam perante qualquer baboseira que ele falasse. Porém, mal sabia mamãe que Sofia achava papai muito moderado, isso sim.
Aparentemente conflituosa, a relação de seus pais era sumariamente baseada e sustentada pelo amor. Sofia entendia e condensava essa virtude como numa síntese dialética, sem deixar as outras virtudes dos pais de lado. No fundo, era mais radical que seu pai, não à toa ele a admirava tanto, bem como mais protetora que sua mãe, sendo igualmente tão admirada por ela. "O demônio do capital", pensava e às vezes palestrava Sofia a seus amigos, nas reuniões dos grupos da igreja, "é a analogia perfeita à mão invisível de Adam Smith; bem como a perfeita contradição do Reino de Deus e seus valores de amor, justiça e fraternidade. Aquele é o foco do nosso combate, este é a razão da nossa militância!"
A igreja protestante que Sofia frequentava não tinha espaço físico algum. "Nada de paredes próprias", era o lema da comunidade, pois entendiam seus membros que Jesus trouxera a liberdade em todos os sentidos, a toda humanidade. Não tinham nenhum líder, bispo, apóstolo, comissionado, déspota, oportunista, missionário ou pastor específico. Todos liam e estudavam as Escrituras Sagradas à luz de uma reflexão contextualizada à época de sua escrita, comparada ao hodierno. Reuniam-se em espaços públicos ou em casas, debatendo e praticando o amor, em resposta à maior expressão atual de pecado da humanidade, o capitalismo e toda sua lógica intrínseca: o egoísmo, a usura, a ganância, a indiferença e a dominação de poucos sobre muitos. Tinham o cuidado básico de não apenas empreender práticas meramente assistencialistas, incorrendo na forte tentação de estagnarem-se, conformadas tão somente nelas. Era uma igreja que se inseria politicamente no âmbito das ideias cristãs libertárias, respeitando a necessária condição laica do Estado, que toda a comunidade aprendera a reivindicar também. Pregavam a tolerância sexual, a abolição da supremacia da propriedade privada, a tolerância e ecumenismo religiosos, bem como a importância do caráter público, democrático e de qualidade das necessidades básicas: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Era uma igreja viva em todos os sentidos, e em momento algum ela se reivindicava exclusiva ou sectária. Não ousavam deter o monopólio da verdade, muito menos arrancá-la à força com estúpidas interpretações bíblicas. Enfim, uma rara igreja de Cristo.
Mas eram tempos difíceis. Em paralelo a tanta liberdade de consciência religiosa, vivida por Sofia, em seu microcosmos, seitas eclesiásticas e para-eclesiásticas cresciam exponencialmente em número e ignorância. Uma tal bancada evangélica, já completamente fadada ao fisiologismo e totalmente submissa a Mamom (o demônio do capital) não tinha escrúpulo algum em se tornar aquilo que Jesus tanto criticara: sepulcros caiados. A desigualdade social, muito bem demonstrada pela mais discrepante taxa histórica de distribuição de renda, era gritante. O Estado assumia os interesses dos grandes capitalistas e rentistas sem nenhum pudor. E não por menos, a bancada evangélica que envergonhava o próprio evangelho, desviava a importância do debate político para questões moralistas, escondendo assim o mau cheiro exalado de suas próprias entranhas. "Não ao aborto! homossexualismo é pecado! castidade acima de tudo! mulheres devem ser submissas aos homens! toda liderança é instituída por Deus!" Essas e outras representavam as ridículas e anacrônicas pautas reivindicatórias daqueles que no fundo só pensavam em seus próprios bolsos, aproveitando-se de uma teia intrincada de interesses difusos e abocanhando uma parcela da gerência do poder sobre o povo que representavam.
Sofia era consciente do verdadeiro inimigo. Sabia que o pobre fiel que soletrava, verso a verso o jogral da intolerância estúpida, não era culpado. Muitas vezes até compreendia que seus líderes e representantes eram igualmente presos a uma lógica intrínseca, arraigada e abstrata, bastando a estes, tão somente reproduzir tal visão de mundo. Por estas ocasiões de reflexão, sempre lhe vinha à mente um maravilhoso texto bíblico, que, não à toa, tratava-se de palavras proferidas pelo próprio Jesus: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Jesus disse isso, pois os fariseus já se consideravam livres por serem descendência de Abraão; estavam presos á sua intrínseca, abstrata e arraigada lógica soteriológica. Era justamente a contextualização dessa lógica, seu significado para os dias de hoje, que deveria ser combatido. Essa lógica dominadora e escravizante, representada no atual sistema e em todos seus anti-valores individualistas e mesquinhos, que deveria ser desmascarada.
Mas perante toda essa conjuntura, Sofia não tinha medo. A força, firmeza e coragem que faltaram a seu pai, mas que herdou de mamãe, punham-na em marcha. No dia de seu aniversário, sai à rua, grita por justiça, ergue bandeiras! Ameaças de morte não a detém, são como presentes de aniversário dos convidados à sua festa. Continua com sua arte e com sua luta, pois sabe também que estas dádivas vêm de Deus e devem edificar toda sua criação. Tem consciência que pode até não vir contemplar a terra prometida, mas ela já foi prometida. Diante de todo o cenário posto, ela canta e estufa o peito, como num destoado de toda a verborragia açucarada, proferida pelos fariseus da atualidade, a seguinte canção, que já não consta mais nos modernos hinários: "Aos poderosos eu vou pregar, aos homens ricos vou proclamar, que a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus!" E com esperança, mesmo os céus e a terra indicando o contrário, Sofia também canta mais uma esquecida canção, que profere a maior das profecias: "O dia da vitória, em que virá o Salvador, sim Jesus Cristo, o Senhor, virá nas nuvens para me levar. Se tornará verdade tudo o que sempre sonhei, tristezas eu jamais verei e toda lágrima do meu olhar, ele enxugará!" (autor: Walter H. Diesel)

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