Eis a razão do título deste blog: um vídeo clássico! Clique na imagem.

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

HOMO

até que enfim
desse mal
não sofro mais

comer capim
não é coisa
pra capataz

SAPIENS

terça-feira, 30 de julho de 2013

TRISTEZA

"Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração." (Eclesiastes 7:2-3)



tudo parece vazio
a lágrima quente escorre
tudo tá por um fio
de nada valeu o porre

parece o fim

como se nunca houvesse retorno
como se sempre serei remorso

qual impotência esquenta o forno
de ser fracassado, assim me esforço

dói em mim

mas nada é tão adverso
que não clame qualquer esperança
eis a lição desse verso
mude a música

e muda a dança

quinta-feira, 25 de julho de 2013

BASTA!

Ao "azarado" preto pobre
que de preto tem a cor
e de pobre a condição

o "sortudo" branco nobre
que disfarça o mal odor
e enobrece a exploração


Ao sem teto feio e fraco
que tem frio em todo corpo
e nenhuma propriedade

o playboy portando um taco
que é gordo feito um porco
dono inteiro da cidade


Ao singelo favelado
mera falha da errância
de uma mão dita invisível

o rigor do vil Estado
servo cego da ganância
com pudor de baixo nível


Ao casal homoafetivo
que só quer viver em paz
é assim de leste a oeste

resta o julgo decisivo
de uma culpa contumaz
de um pecado inconteste


BASTA!


Não é possível que a existência
se resuma a essa missa
que família e patrimônio
estejam acima da justiça

Se é assim, me dê licença
e vá ver se eu tô na esquina
pois de humano a demônio
é o primeiro que abomina

(autor: Walter H. Diesel)

segunda-feira, 22 de julho de 2013

FRAQUEZA

vive comigo
bebe meu pranto
sou teu amigo
ouve meu canto

preciso do teu cheiro
da tua voz e do teu rosto
um afago derradeiro
ou eu piro até agosto

esquece o errado
celebra a loucura

não peço mais nada
só o fim dessa ditadura

(autor: Walter H. Diesel)

quinta-feira, 11 de julho de 2013

TRIPALIUM

"A formiga só trabalha porque não sabe cantar." (Raulzito)



Everton foi dormir tarde, lá pelas duas horas da manhã. Embora estivesse cansado, tinha pouco sono e, além disso, estava frustrado. Passou a noite inteira só assistindo a vídeos idiotas no Youtube e curtindo e comentando inutilidades no Facebook. Quanto sentido na vida! - exclamou mentalmente Everton, antes de pegar no sono.

Dia seguinte, o despertador toca e ele abre o olho, já querendo fechá-lo de novo. Em seguida, mal percebendo, num movimento involuntário, aciona o "soneca" e procura gozar mais uns dez minutinhos de sono forçado. Ao acordar novamente, sem barulho algum de despertador, percebe a cagada que fez e vê que está atrasado pra chegar ao Trabalho. Tenta descobrir, percorrendo mentalmente, o que fez de errado, o porquê de o despertador não haver tocado. Bem sonolento ainda, imagina que deva ter apertado algum botão errado do aparelho. Ah! Foda-se! - exclamou sozinho. O atraso já era inevitável, só lhe restava torcer para não dar de cara com seu Coordenador ao chegar na Repartição.

Levantou-se devagar e cambaleante, espreguiçou largamente a pobre carcaça, tomou seus óculos, os pôs nos olhos, bocejou de dar inveja a qualquer bicho preguiça e tomou um susto. Bem ao lado da caixa de contas pagas e a pagar, em cima da escrivaninha, havia uma outra caixa similar. Estava ali: bem alinhada e estática, à sua frente. Dentro dela viam-se vários rascunhos, cadernos e fotografias. Ainda em estado intermediário do sono ao despertar, sem medo, Everton meteu a mão na caixa, chafurdou rapidamente, procurando algo de interessante e, sinestesicamente, pôde conhecer boa parte de seu conteúdo, senão todo ele. Eram projetos, sonhos e objetivos de vida que tivera até então. Via, ouvia, sentia e cheirava os sons das músicas que quer compor, as letras dos poemas e prosas que quer escrever, os lugares distantes que quer visitar, as bebidas e comidas que quer provar, as entrevistas, conversas e palestras que quer realizar, as pessoas que quer conhecer, o mundo que quer mudar... Saboreou tudo isso em êxtase e lhe pareceu até que ficou horas e horas em transe profundo, num prazer sem fim. Mas, de supetão, toda a sinestesia cessou. A caixa ainda estava lá, e sua mão agora se encontrava fora dela. Ainda continuava sonolento, o que não o impediu de achar em si mínimo ânimo a meter a mão de volta na caixa. Só que no meio do caminho desistiu. Parou e lembrou novamente que estava atrasado ao Trabalho. Seria um sonho? - duvidou Everton. Sem delongas, foi lavar o rosto, talvez assim teria certeza da realidade em que se situava. Mas antes disso, reparou que em letras bem legíveis, a caixa tinha por rótulo a seguinte mensagem:

BOM DIA! SORRIA!

Achou engraçado e meio estranho, mas não deu muita importância. Voltando do banheiro, com o rosto bem lavado, certo de que realmente nada do que passou fora um sonho, tomou ele outro susto em seu quarto: a caixa desapareceu. Não entendendo mais nada, até procurou por ela ao redor do quarto bagunçado, não encontrando vestígio algum. Merda! Tenho que sair logo! - murmurou Everton, relembrando catastroficamente que estava atrasado. Botou um par de meias sujas, vestiu a primeira muda de roupa que avistou, deu um ligeiro tapa no cabelo, meteu no bolso, de qualquer jeito, algum trocado, o cartão de crédito, o vale-refeição e transporte e o documento de identidade, vasculhou rapidamente o quarto atrás da chave e do fone de ouvido, que estavam ao lado do computador e foi saindo. Trancou o apartamento, chamou o elevador e, no meio da eterna espera pelo mesmo, lembrou que aquele era o último dia pra pagar o aluguel. Voltou correndo pro apê, foi até a odiosa caixa de contas pagas e a pagar, chafurdou-a com asco e encontrou o boleto do aluguel, lhe causando um misto de êxito e arrependimento. Por sorte, ao trancar a porta do apartamento novamente, percebeu que o elevador acabava de chegar. Então se sentiu o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.

Entrou atropeladamente no elevador e lá encontrou a vizinha desconhecida e gostosa. Sempre quis convidá-la pra sair, mas sequer sabia seu nome. Abriu um sorriso, acenou com a cabeça e, num lapso rápido, viu que estava acompanhada. Era um cara esquisito, meio desajeitado, ainda abotoando a camisa. Enfim, Everton acabou engolindo as meias palavras gentis, que rapidamente preparara à moça, e se contentou com um breve "opa".

Já na rua, apressado, ele até corre atrás, mas perde um Ônibus. Procura se acalmar; afinal não é a primeira nem a última vez que isso acontece, e seu atraso ao Trabalho não tem nada com isso. Inesperadamente, logo em seguida vem outra Condução que pode lhe deixar praticamente à porta de sua Repartição e, ainda por cima, percorrendo um caminho mais curto. Analisa rapidamente a situação e conclui que seu atraso ao Trabalho não será tão longo assim. Sente-se novamente o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.

Dá-se início então à peleja do Transporte Público em direção ao Cartão Ponto. Everton sobe à Condução se espremendo como pode e acaba sendo parcialmente esmagado pela porta, pois foi o último a entrar e não queria arredar daquela oportunidade. Entre a quarta e quinta parada do Ônibus, ele chega até o cobrador e o percebe dormindo sentado, com a cabeça recostada para trás e a bocona aberta, num sono profundo e roncando ameaçadoramente. Um pouco intimidado perante tal cena, chega a invejar o cobrador, não deixando de censurá-lo também, por aparentemente se portar com desídia à sua função. No entanto, sem tempo para maiores julgamentos, já que atrás de Everton bufava uma multidão impaciente, ansiosa em vencer o primeiro obstáculo do dia de cão: a catraca; ele logo mete a mão no bolso, caçando, com o tato de um cego habilidoso lendo em braile, o cartão de vale-transporte. Orgulhoso por encontrá-lo rapidamente, quase o empunha para se gabar, mas resigna-se em direcioná-lo ao leitor magnético. Tenta uma, duas, três vezes e nada acontece. Tenta uma quarta vez, sob algum protesto dos ilustres usuários do Transporte Público e desiste, lançando em tom audível um desabafador: Puta! Que bosta! Mete a mão no bolso novamente, agora caçando moedas e notas miúdas, a fim de se livrar delas, unindo o útil ao agradável. Como era de se esperar, essa tarefa, além de atrapalhada da parte dele, aumentou os protestos do proletariado já angustiado com seus potenciais próprios atrasos. O agravante a isso tudo era que o Ônibus não partia enquanto Everton não girasse a maldita catraca, pois muitos outros usuários aguardavam ao lado de fora da quinta parada, tal qual Everton, não querendo desistir da oportunidade. Finalmente ele consegue juntar os trocados, centavo a centavo e então volta a olhar para o cobrador. Tinha esquecido que o diabo estava dormindo. Sem pensar na melhor estratégia, com educação e em baixo tom tenta acordá-lo:

- Amigo. Ei! Amigo!

O cobrador, além de não despertar, solta um ronco bonito e vigoroso. Pois bem, pacientes leitores, a esta altura dos acontecimentos, a plateia atrás de Everton, já querendo sangue, começa a ajudá-lo, não por solidariedade, mas por puro egoísmo. Após alguns "delicados" gritos, o homem acorda, se recompõe como pode, faz uma cara de bunda e libera a catraca ao pobre Everton. Resumindo, a aparente paz volta a reinar no Transporte Público.

A missão agora é outra: achar algum lugar para se segurar e se manter firme até a parada final; quem sabe, com sorte, conseguir um assento livre. E vejam só: a missão toda foi cumprida. Sentado ao lado de outro sonolento passageiro, Everton consegue botar os fones no ouvido para tentar relaxar e se distrair com um roquenrouzinho sem graça. Entre uma sacolejada e outra, aliás, várias delas, o que, inclusive, provocou a queda de um senhor em seu colo, causando constrangimento a todos; o Ônibus chega à porta da Repartição.

Desce do Ônibus. Mas antes fosse uma tarefa fácil desembarcar; foram necessárias várias cotoveladas, empurrões e gritos para que o motorista mantivesse a porta de saída aberta, pois era difícil e demorado se livrar dos outros passageiros que empanturravam o busão.

Alívio. Essa é uma palavra bastante adequada para o dia-a-dia de Everton ao sair do Ônibus. Mas nesse dia ele não podia se dar ao luxo de gozar desse alívio. Prontamente se dirigiu à Repartição, bateu o Cartão Ponto e sentiu-se contemplado por não ter que topar com seu Coordenador até então. Dirigiu-se à sua mesa sorrateiramente, pois eram exatos 40 minutos de atraso, e ali levou o último susto do dia. A caixa estranha e sinestésica estava em cima de mesa, alinhada e estática, bem à sua frente. Fitou-a melhor e percebeu dentro dela um rascunho legível de uma composição musical, que há tempos estivera pensando em criar. Lá estava o rascunho, todo completo, cifrado, com partituras e detalhes que só ele entenderia e poderia, em pouquíssimos minutos, executar e se deliciar. Não pensando duas vezes, sentou-se à mesa e foi metendo a mão na caixa, sem deixar de perceber a mesma mensagem engraçada, antes vista, em seu rótulo: BOM DIA! SORRIA!

E pasmem, infelizmente dessa vez Everton não experimentou sinestesia alguma, aliás, não experimentou nada. Pior que isso, a caixa começou a sumir tão esquisita e misteriosamente quanto a experiência sinestésica em seu apartamento. E isso foi rápido o suficiente a ponto de Everton não conseguir salvar nada. Isso mesmo caro leitor, todos os projetos, sonhos e objetivos de vida que Everton tivera até então, foram sumindo e desaparecendo, caindo no esquecimento. Então, quando menos percebeu, no lugar da caixa restou apenas um singelo sulfite A4 com a seguinte sentença em letras garrafais:

O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM.

Mais uma vez frustrado, Everton ergue a cabeça, se recompõe da perda e avista seu Coordenador vindo em sua direção. O desgraçado apontava e cutucava discretamente seu Rolex falsificado, esboçando um sorrisinho cínico, que, só quem trabalha conhece. Ao chegar diante de Everton, mantendo o maldito sorriso, o saúda:


- Bom dia Everton. A gente precisa ter uma conversinha. (autor: Walter H. Diesel)

quarta-feira, 12 de junho de 2013

TCHAU

Tchau bom
é tchau não dado
interjeição
sussuro seco e malvado

alguns a gente nem faz questão
chegam por chegar
e saindo de sopetão
é favor nem avisar

mas o peito aperta quando ela vem
pois pronto sei que logo vai

é tchau previsto, não anunciado

grito surdo
ser mal quisto

triste absurdo
algoz calado

(autor: Walter H. Diesel)

terça-feira, 28 de maio de 2013

BREVE VIDA E OBRA DE SOFIA, A CRISTÃ

Sofia, filha de um músico e de uma atriz de novela, achava sua mãe um pouco careta e seu pai um tanto quanto insaciável. Ela gostava de meninas e seus pais a compreendiam equilibradamente por isso. Mamãe ficava mais preocupada, já papai não via mal algum. Era amante das artes, admirava mamãe e papai por suas atividades, mas se dedicava mesmo às pinturas, gravuras e quadrinhos. De papai puxara a rebeldia, só que uma rebeldia declarada e atuada, não como a escamoteada do velho; de mamãe, a firmeza e a ternura, tal qual.
Era 07/04/2042. Sofia completava seus 25 anos de idade. Era também dia de passeatas e protestos, pois o governo, que se dizia trabalhista, acabava de anunciar que privatizaria os serviços de coleta, filtragem e distribuição de ar puro. Cheios de ironia e sarcasmo, os quadrinhos de Sofia circulavam pelas redes sociais com boa aceitação e críticas dos mais diversos matizes. "Falem bem falem mal, falem de mim", gostava de pensar Sofia. O grande conglomerado midiático até tentava, mas não conseguia manter-se indiferente às alfinetadas dela. As redes sociais, na internet, já haviam alcançado um status democrático e popular grande o suficiente para que ela não passasse despercebida.
"Mais uma contradição do capital", cansava-se de ouvir Sofia de seu dinossáurico pai. "A internet, tão necessária à reprodução cada vez mais ágil do capitalismo, e sua irreversível e intrínseca capacidade democratizante, compromete o próprio capitalismo, filha. Mais uma prova de que Marx estava certo ao profetizar: o limite do capital é o próprio capital". Mamãe já não retrucava mais o velho e aposentado músico, pois percebia que Sofia o ouvia mais por educação que qualquer outra coisa; confiava e compartilhava sua preocupação da aparente senilidade dele, com a filha, e estava certa que sua fé em Deus e sua militância cristã a credenciavam e protegiam perante qualquer baboseira que ele falasse. Porém, mal sabia mamãe que Sofia achava papai muito moderado, isso sim.
Aparentemente conflituosa, a relação de seus pais era sumariamente baseada e sustentada pelo amor. Sofia entendia e condensava essa virtude como numa síntese dialética, sem deixar as outras virtudes dos pais de lado. No fundo, era mais radical que seu pai, não à toa ele a admirava tanto, bem como mais protetora que sua mãe, sendo igualmente tão admirada por ela. "O demônio do capital", pensava e às vezes palestrava Sofia a seus amigos, nas reuniões dos grupos da igreja, "é a analogia perfeita à mão invisível de Adam Smith; bem como a perfeita contradição do Reino de Deus e seus valores de amor, justiça e fraternidade. Aquele é o foco do nosso combate, este é a razão da nossa militância!"
A igreja protestante que Sofia frequentava não tinha espaço físico algum. "Nada de paredes próprias", era o lema da comunidade, pois entendiam seus membros que Jesus trouxera a liberdade em todos os sentidos, a toda humanidade. Não tinham nenhum líder, bispo, apóstolo, comissionado, déspota, oportunista, missionário ou pastor específico. Todos liam e estudavam as Escrituras Sagradas à luz de uma reflexão contextualizada à época de sua escrita, comparada ao hodierno. Reuniam-se em espaços públicos ou em casas, debatendo e praticando o amor, em resposta à maior expressão atual de pecado da humanidade, o capitalismo e toda sua lógica intrínseca: o egoísmo, a usura, a ganância, a indiferença e a dominação de poucos sobre muitos. Tinham o cuidado básico de não apenas empreender práticas meramente assistencialistas, incorrendo na forte tentação de estagnarem-se, conformadas tão somente nelas. Era uma igreja que se inseria politicamente no âmbito das ideias cristãs libertárias, respeitando a necessária condição laica do Estado, que toda a comunidade aprendera a reivindicar também. Pregavam a tolerância sexual, a abolição da supremacia da propriedade privada, a tolerância e ecumenismo religiosos, bem como a importância do caráter público, democrático e de qualidade das necessidades básicas: a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância e a assistência aos desamparados. Era uma igreja viva em todos os sentidos, e em momento algum ela se reivindicava exclusiva ou sectária. Não ousavam deter o monopólio da verdade, muito menos arrancá-la à força com estúpidas interpretações bíblicas. Enfim, uma rara igreja de Cristo.
Mas eram tempos difíceis. Em paralelo a tanta liberdade de consciência religiosa, vivida por Sofia, em seu microcosmos, seitas eclesiásticas e para-eclesiásticas cresciam exponencialmente em número e ignorância. Uma tal bancada evangélica, já completamente fadada ao fisiologismo e totalmente submissa a Mamom (o demônio do capital) não tinha escrúpulo algum em se tornar aquilo que Jesus tanto criticara: sepulcros caiados. A desigualdade social, muito bem demonstrada pela mais discrepante taxa histórica de distribuição de renda, era gritante. O Estado assumia os interesses dos grandes capitalistas e rentistas sem nenhum pudor. E não por menos, a bancada evangélica que envergonhava o próprio evangelho, desviava a importância do debate político para questões moralistas, escondendo assim o mau cheiro exalado de suas próprias entranhas. "Não ao aborto! homossexualismo é pecado! castidade acima de tudo! mulheres devem ser submissas aos homens! toda liderança é instituída por Deus!" Essas e outras representavam as ridículas e anacrônicas pautas reivindicatórias daqueles que no fundo só pensavam em seus próprios bolsos, aproveitando-se de uma teia intrincada de interesses difusos e abocanhando uma parcela da gerência do poder sobre o povo que representavam.
Sofia era consciente do verdadeiro inimigo. Sabia que o pobre fiel que soletrava, verso a verso o jogral da intolerância estúpida, não era culpado. Muitas vezes até compreendia que seus líderes e representantes eram igualmente presos a uma lógica intrínseca, arraigada e abstrata, bastando a estes, tão somente reproduzir tal visão de mundo. Por estas ocasiões de reflexão, sempre lhe vinha à mente um maravilhoso texto bíblico, que, não à toa, tratava-se de palavras proferidas pelo próprio Jesus: "E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará." Jesus disse isso, pois os fariseus já se consideravam livres por serem descendência de Abraão; estavam presos á sua intrínseca, abstrata e arraigada lógica soteriológica. Era justamente a contextualização dessa lógica, seu significado para os dias de hoje, que deveria ser combatido. Essa lógica dominadora e escravizante, representada no atual sistema e em todos seus anti-valores individualistas e mesquinhos, que deveria ser desmascarada.
Mas perante toda essa conjuntura, Sofia não tinha medo. A força, firmeza e coragem que faltaram a seu pai, mas que herdou de mamãe, punham-na em marcha. No dia de seu aniversário, sai à rua, grita por justiça, ergue bandeiras! Ameaças de morte não a detém, são como presentes de aniversário dos convidados à sua festa. Continua com sua arte e com sua luta, pois sabe também que estas dádivas vêm de Deus e devem edificar toda sua criação. Tem consciência que pode até não vir contemplar a terra prometida, mas ela já foi prometida. Diante de todo o cenário posto, ela canta e estufa o peito, como num destoado de toda a verborragia açucarada, proferida pelos fariseus da atualidade, a seguinte canção, que já não consta mais nos modernos hinários: "Aos poderosos eu vou pregar, aos homens ricos vou proclamar, que a injustiça é contra Deus e a vil miséria insulta os céus!" E com esperança, mesmo os céus e a terra indicando o contrário, Sofia também canta mais uma esquecida canção, que profere a maior das profecias: "O dia da vitória, em que virá o Salvador, sim Jesus Cristo, o Senhor, virá nas nuvens para me levar. Se tornará verdade tudo o que sempre sonhei, tristezas eu jamais verei e toda lágrima do meu olhar, ele enxugará!" (autor: Walter H. Diesel)