"Melhor é ir à casa onde há luto do que ir à casa onde há banquete, porque naquela está o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração. Melhor é a mágoa do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração." (Eclesiastes 7:2-3)
tudo parece vazio
a lágrima quente escorre
tudo tá por um fio
de nada valeu o porre
parece o fim
como se nunca houvesse retorno
como se sempre serei remorso
qual impotência esquenta o forno
de ser fracassado, assim me esforço
dói em mim
mas nada é tão adverso
que não clame qualquer esperança
eis a lição desse verso
mude a música
e muda a dança
terça-feira, 30 de julho de 2013
quinta-feira, 25 de julho de 2013
BASTA!
Ao "azarado" preto pobre
que de preto tem a cor
e de pobre a condição
o "sortudo" branco nobre
que disfarça o mal odor
e enobrece a exploração
Ao sem teto feio e fraco
que tem frio em todo corpo
e nenhuma propriedade
o playboy portando um taco
que é gordo feito um porco
dono inteiro da cidade
Ao singelo favelado
mera falha da errância
de uma mão dita invisível
o rigor do vil Estado
servo cego da ganância
com pudor de baixo nível
Ao casal homoafetivo
que só quer viver em paz
é assim de leste a oeste
resta o julgo decisivo
de uma culpa contumaz
de um pecado inconteste
BASTA!
Não é possível que a existência
se resuma a essa missa
que família e patrimônio
estejam acima da justiça
Se é assim, me dê licença
e vá ver se eu tô na esquina
pois de humano a demônio
é o primeiro que abomina
(autor: Walter H. Diesel)
que de preto tem a cor
e de pobre a condição
o "sortudo" branco nobre
que disfarça o mal odor
e enobrece a exploração
Ao sem teto feio e fraco
que tem frio em todo corpo
e nenhuma propriedade
o playboy portando um taco
que é gordo feito um porco
dono inteiro da cidade
Ao singelo favelado
mera falha da errância
de uma mão dita invisível
o rigor do vil Estado
servo cego da ganância
com pudor de baixo nível
Ao casal homoafetivo
que só quer viver em paz
é assim de leste a oeste
resta o julgo decisivo
de uma culpa contumaz
de um pecado inconteste
BASTA!
Não é possível que a existência
se resuma a essa missa
que família e patrimônio
estejam acima da justiça
Se é assim, me dê licença
e vá ver se eu tô na esquina
pois de humano a demônio
é o primeiro que abomina
(autor: Walter H. Diesel)
segunda-feira, 22 de julho de 2013
FRAQUEZA
vive comigo
bebe meu pranto
sou teu amigo
ouve meu canto
preciso do teu cheiro
da tua voz e do teu rosto
um afago derradeiro
ou eu piro até agosto
esquece o errado
celebra a loucura
não peço mais nada
só o fim dessa ditadura
(autor: Walter H. Diesel)
bebe meu pranto
sou teu amigo
ouve meu canto
preciso do teu cheiro
da tua voz e do teu rosto
um afago derradeiro
ou eu piro até agosto
esquece o errado
celebra a loucura
não peço mais nada
só o fim dessa ditadura
(autor: Walter H. Diesel)
quinta-feira, 11 de julho de 2013
TRIPALIUM
"A formiga só trabalha porque não sabe cantar." (Raulzito)
Everton foi dormir tarde, lá pelas duas horas da manhã.
Embora estivesse cansado, tinha pouco sono e, além disso, estava frustrado. Passou
a noite inteira só assistindo a vídeos idiotas no Youtube e curtindo e
comentando inutilidades no Facebook. Quanto sentido na vida! - exclamou
mentalmente Everton, antes de pegar no sono.
Dia seguinte, o despertador toca e ele abre o olho, já
querendo fechá-lo de novo. Em seguida, mal percebendo, num movimento
involuntário, aciona o "soneca" e procura gozar mais uns dez
minutinhos de sono forçado. Ao acordar novamente, sem barulho algum de
despertador, percebe a cagada que fez e vê que está atrasado pra chegar ao Trabalho.
Tenta descobrir, percorrendo mentalmente, o que fez de errado, o porquê de o
despertador não haver tocado. Bem sonolento ainda, imagina que deva ter
apertado algum botão errado do aparelho. Ah! Foda-se! - exclamou sozinho. O
atraso já era inevitável, só lhe restava torcer para não dar de cara com seu Coordenador
ao chegar na Repartição.
Levantou-se devagar e cambaleante, espreguiçou largamente a
pobre carcaça, tomou seus óculos, os pôs nos olhos, bocejou de dar inveja a
qualquer bicho preguiça e tomou um susto. Bem ao lado da caixa de contas pagas
e a pagar, em cima da escrivaninha, havia uma outra caixa similar. Estava ali:
bem alinhada e estática, à sua frente. Dentro dela viam-se vários rascunhos,
cadernos e fotografias. Ainda em estado intermediário do sono ao despertar, sem
medo, Everton meteu a mão na caixa, chafurdou rapidamente, procurando algo de interessante
e, sinestesicamente, pôde conhecer boa parte de seu conteúdo, senão todo ele.
Eram projetos, sonhos e objetivos de vida que tivera até então. Via, ouvia,
sentia e cheirava os sons das músicas que quer compor, as letras dos poemas e
prosas que quer escrever, os lugares distantes que quer visitar, as bebidas e
comidas que quer provar, as entrevistas, conversas e palestras que quer
realizar, as pessoas que quer conhecer, o mundo que quer mudar... Saboreou tudo
isso em êxtase e lhe pareceu até que ficou horas e horas em transe profundo,
num prazer sem fim. Mas, de supetão, toda a sinestesia cessou. A caixa ainda
estava lá, e sua mão agora se encontrava fora dela. Ainda continuava sonolento,
o que não o impediu de achar em si mínimo ânimo a meter a mão de volta na
caixa. Só que no meio do caminho desistiu. Parou e lembrou novamente que estava
atrasado ao Trabalho. Seria um sonho? - duvidou Everton. Sem delongas, foi
lavar o rosto, talvez assim teria certeza da realidade em que se situava. Mas
antes disso, reparou que em letras bem legíveis, a caixa tinha por rótulo a seguinte
mensagem:
BOM DIA! SORRIA!
Achou engraçado e meio estranho, mas não deu muita
importância. Voltando do banheiro, com o rosto bem lavado, certo de que
realmente nada do que passou fora um sonho, tomou ele outro susto em seu
quarto: a caixa desapareceu. Não entendendo mais nada, até procurou por ela ao
redor do quarto bagunçado, não encontrando vestígio algum. Merda! Tenho que
sair logo! - murmurou Everton, relembrando catastroficamente que estava
atrasado. Botou um par de meias sujas, vestiu a primeira muda de roupa que avistou,
deu um ligeiro tapa no cabelo, meteu no bolso, de qualquer jeito, algum
trocado, o cartão de crédito, o vale-refeição e transporte e o documento de
identidade, vasculhou rapidamente o quarto atrás da chave e do fone de ouvido,
que estavam ao lado do computador e foi saindo. Trancou o apartamento, chamou o
elevador e, no meio da eterna espera pelo mesmo, lembrou que aquele era o
último dia pra pagar o aluguel. Voltou correndo pro apê, foi até a odiosa caixa
de contas pagas e a pagar, chafurdou-a com asco e encontrou o boleto do
aluguel, lhe causando um misto de êxito e arrependimento. Por sorte, ao trancar
a porta do apartamento novamente, percebeu que o elevador acabava de chegar.
Então se sentiu o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era
capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.
Entrou atropeladamente no elevador e lá encontrou a vizinha
desconhecida e gostosa. Sempre quis convidá-la pra sair, mas sequer sabia seu
nome. Abriu um sorriso, acenou com a cabeça e, num lapso rápido, viu que estava
acompanhada. Era um cara esquisito, meio desajeitado, ainda abotoando a camisa.
Enfim, Everton acabou engolindo as meias palavras gentis, que rapidamente
preparara à moça, e se contentou com um breve "opa".
Já na rua, apressado, ele até corre atrás, mas perde um Ônibus.
Procura se acalmar; afinal não é a primeira nem a última vez que isso acontece,
e seu atraso ao Trabalho não tem nada com isso. Inesperadamente, logo em
seguida vem outra Condução que pode lhe deixar praticamente à porta de sua Repartição
e, ainda por cima, percorrendo um caminho mais curto. Analisa rapidamente a
situação e conclui que seu atraso ao Trabalho não será tão longo assim.
Sente-se novamente o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era
capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.
Dá-se início então à peleja do Transporte Público em direção
ao Cartão Ponto. Everton sobe à Condução se espremendo como pode e acaba sendo
parcialmente esmagado pela porta, pois foi o último a entrar e não queria
arredar daquela oportunidade. Entre a quarta e quinta parada do Ônibus, ele
chega até o cobrador e o percebe dormindo sentado, com a cabeça recostada para
trás e a bocona aberta, num sono profundo e roncando ameaçadoramente. Um pouco
intimidado perante tal cena, chega a invejar o cobrador, não deixando de
censurá-lo também, por aparentemente se portar com desídia à sua função. No
entanto, sem tempo para maiores julgamentos, já que atrás de Everton bufava uma
multidão impaciente, ansiosa em vencer o primeiro obstáculo do dia de cão: a
catraca; ele logo mete a mão no bolso, caçando, com o tato de um cego
habilidoso lendo em braile, o cartão de vale-transporte. Orgulhoso por
encontrá-lo rapidamente, quase o empunha para se gabar, mas resigna-se em
direcioná-lo ao leitor magnético. Tenta uma, duas, três vezes e nada acontece.
Tenta uma quarta vez, sob algum protesto dos ilustres usuários do Transporte Público
e desiste, lançando em tom audível um desabafador: Puta! Que bosta! Mete a mão
no bolso novamente, agora caçando moedas e notas miúdas, a fim de se livrar
delas, unindo o útil ao agradável. Como era de se esperar, essa tarefa, além de
atrapalhada da parte dele, aumentou os protestos do proletariado já angustiado
com seus potenciais próprios atrasos. O agravante a isso tudo era que o Ônibus
não partia enquanto Everton não girasse a maldita catraca, pois muitos outros
usuários aguardavam ao lado de fora da quinta parada, tal qual Everton, não
querendo desistir da oportunidade. Finalmente ele consegue juntar os trocados,
centavo a centavo e então volta a olhar para o cobrador. Tinha esquecido que o
diabo estava dormindo. Sem pensar na melhor estratégia, com educação e em baixo
tom tenta acordá-lo:
- Amigo. Ei! Amigo!
O cobrador, além de não despertar, solta um ronco bonito e
vigoroso. Pois bem, pacientes leitores, a esta altura dos acontecimentos, a
plateia atrás de Everton, já querendo sangue, começa a ajudá-lo, não por
solidariedade, mas por puro egoísmo. Após alguns "delicados" gritos,
o homem acorda, se recompõe como pode, faz uma cara de bunda e libera a catraca
ao pobre Everton. Resumindo, a aparente paz volta a reinar no Transporte
Público.
A missão agora é outra: achar algum lugar para se segurar e
se manter firme até a parada final; quem sabe, com sorte, conseguir um assento
livre. E vejam só: a missão toda foi cumprida. Sentado ao lado de outro
sonolento passageiro, Everton consegue botar os fones no ouvido para tentar
relaxar e se distrair com um roquenrouzinho sem graça. Entre uma sacolejada e
outra, aliás, várias delas, o que, inclusive, provocou a queda de um senhor em
seu colo, causando constrangimento a todos; o Ônibus chega à porta da Repartição.
Desce do Ônibus. Mas antes fosse uma tarefa fácil desembarcar;
foram necessárias várias cotoveladas, empurrões e gritos para que o motorista
mantivesse a porta de saída aberta, pois era difícil e demorado se livrar dos
outros passageiros que empanturravam o busão.
Alívio. Essa é uma palavra bastante adequada para o
dia-a-dia de Everton ao sair do Ônibus. Mas nesse dia ele não podia se dar ao
luxo de gozar desse alívio. Prontamente se dirigiu à Repartição, bateu o Cartão
Ponto e sentiu-se contemplado por não ter que topar com seu Coordenador até
então. Dirigiu-se à sua mesa sorrateiramente, pois eram exatos 40 minutos de
atraso, e ali levou o último susto do dia. A caixa estranha e sinestésica
estava em cima de mesa, alinhada e estática, bem à sua frente. Fitou-a melhor e
percebeu dentro dela um rascunho legível de uma composição musical, que há
tempos estivera pensando em criar. Lá estava o rascunho, todo completo, cifrado,
com partituras e detalhes que só ele entenderia e poderia, em pouquíssimos
minutos, executar e se deliciar. Não pensando duas vezes, sentou-se à mesa e
foi metendo a mão na caixa, sem deixar de perceber a mesma mensagem engraçada,
antes vista, em seu rótulo: BOM DIA! SORRIA!
E pasmem, infelizmente dessa vez Everton não experimentou
sinestesia alguma, aliás, não experimentou nada. Pior que isso, a caixa começou
a sumir tão esquisita e misteriosamente quanto a experiência sinestésica em seu
apartamento. E isso foi rápido o suficiente a ponto de Everton não conseguir
salvar nada. Isso mesmo caro leitor, todos os projetos, sonhos e objetivos de
vida que Everton tivera até então, foram sumindo e desaparecendo, caindo no
esquecimento. Então, quando menos percebeu, no lugar da caixa restou apenas um
singelo sulfite A4 com a seguinte sentença em letras garrafais:
O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM.
Mais uma vez frustrado, Everton ergue a cabeça, se recompõe
da perda e avista seu Coordenador vindo em sua direção. O desgraçado apontava e
cutucava discretamente seu Rolex falsificado, esboçando um sorrisinho cínico,
que, só quem trabalha conhece. Ao chegar diante de Everton, mantendo o maldito
sorriso, o saúda:
- Bom dia Everton. A gente precisa ter uma conversinha. (autor: Walter H. Diesel)
Assinar:
Postagens (Atom)
