Everton foi dormir tarde, lá pelas duas horas da manhã.
Embora estivesse cansado, tinha pouco sono e, além disso, estava frustrado. Passou
a noite inteira só assistindo a vídeos idiotas no Youtube e curtindo e
comentando inutilidades no Facebook. Quanto sentido na vida! - exclamou
mentalmente Everton, antes de pegar no sono.
Dia seguinte, o despertador toca e ele abre o olho, já
querendo fechá-lo de novo. Em seguida, mal percebendo, num movimento
involuntário, aciona o "soneca" e procura gozar mais uns dez
minutinhos de sono forçado. Ao acordar novamente, sem barulho algum de
despertador, percebe a cagada que fez e vê que está atrasado pra chegar ao Trabalho.
Tenta descobrir, percorrendo mentalmente, o que fez de errado, o porquê de o
despertador não haver tocado. Bem sonolento ainda, imagina que deva ter
apertado algum botão errado do aparelho. Ah! Foda-se! - exclamou sozinho. O
atraso já era inevitável, só lhe restava torcer para não dar de cara com seu Coordenador
ao chegar na Repartição.
Levantou-se devagar e cambaleante, espreguiçou largamente a
pobre carcaça, tomou seus óculos, os pôs nos olhos, bocejou de dar inveja a
qualquer bicho preguiça e tomou um susto. Bem ao lado da caixa de contas pagas
e a pagar, em cima da escrivaninha, havia uma outra caixa similar. Estava ali:
bem alinhada e estática, à sua frente. Dentro dela viam-se vários rascunhos,
cadernos e fotografias. Ainda em estado intermediário do sono ao despertar, sem
medo, Everton meteu a mão na caixa, chafurdou rapidamente, procurando algo de interessante
e, sinestesicamente, pôde conhecer boa parte de seu conteúdo, senão todo ele.
Eram projetos, sonhos e objetivos de vida que tivera até então. Via, ouvia,
sentia e cheirava os sons das músicas que quer compor, as letras dos poemas e
prosas que quer escrever, os lugares distantes que quer visitar, as bebidas e
comidas que quer provar, as entrevistas, conversas e palestras que quer
realizar, as pessoas que quer conhecer, o mundo que quer mudar... Saboreou tudo
isso em êxtase e lhe pareceu até que ficou horas e horas em transe profundo,
num prazer sem fim. Mas, de supetão, toda a sinestesia cessou. A caixa ainda
estava lá, e sua mão agora se encontrava fora dela. Ainda continuava sonolento,
o que não o impediu de achar em si mínimo ânimo a meter a mão de volta na
caixa. Só que no meio do caminho desistiu. Parou e lembrou novamente que estava
atrasado ao Trabalho. Seria um sonho? - duvidou Everton. Sem delongas, foi
lavar o rosto, talvez assim teria certeza da realidade em que se situava. Mas
antes disso, reparou que em letras bem legíveis, a caixa tinha por rótulo a seguinte
mensagem:
BOM DIA! SORRIA!
Achou engraçado e meio estranho, mas não deu muita
importância. Voltando do banheiro, com o rosto bem lavado, certo de que
realmente nada do que passou fora um sonho, tomou ele outro susto em seu
quarto: a caixa desapareceu. Não entendendo mais nada, até procurou por ela ao
redor do quarto bagunçado, não encontrando vestígio algum. Merda! Tenho que
sair logo! - murmurou Everton, relembrando catastroficamente que estava
atrasado. Botou um par de meias sujas, vestiu a primeira muda de roupa que avistou,
deu um ligeiro tapa no cabelo, meteu no bolso, de qualquer jeito, algum
trocado, o cartão de crédito, o vale-refeição e transporte e o documento de
identidade, vasculhou rapidamente o quarto atrás da chave e do fone de ouvido,
que estavam ao lado do computador e foi saindo. Trancou o apartamento, chamou o
elevador e, no meio da eterna espera pelo mesmo, lembrou que aquele era o
último dia pra pagar o aluguel. Voltou correndo pro apê, foi até a odiosa caixa
de contas pagas e a pagar, chafurdou-a com asco e encontrou o boleto do
aluguel, lhe causando um misto de êxito e arrependimento. Por sorte, ao trancar
a porta do apartamento novamente, percebeu que o elevador acabava de chegar.
Então se sentiu o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era
capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.
Entrou atropeladamente no elevador e lá encontrou a vizinha
desconhecida e gostosa. Sempre quis convidá-la pra sair, mas sequer sabia seu
nome. Abriu um sorriso, acenou com a cabeça e, num lapso rápido, viu que estava
acompanhada. Era um cara esquisito, meio desajeitado, ainda abotoando a camisa.
Enfim, Everton acabou engolindo as meias palavras gentis, que rapidamente
preparara à moça, e se contentou com um breve "opa".
Já na rua, apressado, ele até corre atrás, mas perde um Ônibus.
Procura se acalmar; afinal não é a primeira nem a última vez que isso acontece,
e seu atraso ao Trabalho não tem nada com isso. Inesperadamente, logo em
seguida vem outra Condução que pode lhe deixar praticamente à porta de sua Repartição
e, ainda por cima, percorrendo um caminho mais curto. Analisa rapidamente a
situação e conclui que seu atraso ao Trabalho não será tão longo assim.
Sente-se novamente o cara mais esperto e sortudo do mundo, percebendo que era
capaz de aproveitar eficientemente o tempo escasso que tinha.
Dá-se início então à peleja do Transporte Público em direção
ao Cartão Ponto. Everton sobe à Condução se espremendo como pode e acaba sendo
parcialmente esmagado pela porta, pois foi o último a entrar e não queria
arredar daquela oportunidade. Entre a quarta e quinta parada do Ônibus, ele
chega até o cobrador e o percebe dormindo sentado, com a cabeça recostada para
trás e a bocona aberta, num sono profundo e roncando ameaçadoramente. Um pouco
intimidado perante tal cena, chega a invejar o cobrador, não deixando de
censurá-lo também, por aparentemente se portar com desídia à sua função. No
entanto, sem tempo para maiores julgamentos, já que atrás de Everton bufava uma
multidão impaciente, ansiosa em vencer o primeiro obstáculo do dia de cão: a
catraca; ele logo mete a mão no bolso, caçando, com o tato de um cego
habilidoso lendo em braile, o cartão de vale-transporte. Orgulhoso por
encontrá-lo rapidamente, quase o empunha para se gabar, mas resigna-se em
direcioná-lo ao leitor magnético. Tenta uma, duas, três vezes e nada acontece.
Tenta uma quarta vez, sob algum protesto dos ilustres usuários do Transporte Público
e desiste, lançando em tom audível um desabafador: Puta! Que bosta! Mete a mão
no bolso novamente, agora caçando moedas e notas miúdas, a fim de se livrar
delas, unindo o útil ao agradável. Como era de se esperar, essa tarefa, além de
atrapalhada da parte dele, aumentou os protestos do proletariado já angustiado
com seus potenciais próprios atrasos. O agravante a isso tudo era que o Ônibus
não partia enquanto Everton não girasse a maldita catraca, pois muitos outros
usuários aguardavam ao lado de fora da quinta parada, tal qual Everton, não
querendo desistir da oportunidade. Finalmente ele consegue juntar os trocados,
centavo a centavo e então volta a olhar para o cobrador. Tinha esquecido que o
diabo estava dormindo. Sem pensar na melhor estratégia, com educação e em baixo
tom tenta acordá-lo:
- Amigo. Ei! Amigo!
O cobrador, além de não despertar, solta um ronco bonito e
vigoroso. Pois bem, pacientes leitores, a esta altura dos acontecimentos, a
plateia atrás de Everton, já querendo sangue, começa a ajudá-lo, não por
solidariedade, mas por puro egoísmo. Após alguns "delicados" gritos,
o homem acorda, se recompõe como pode, faz uma cara de bunda e libera a catraca
ao pobre Everton. Resumindo, a aparente paz volta a reinar no Transporte
Público.
A missão agora é outra: achar algum lugar para se segurar e
se manter firme até a parada final; quem sabe, com sorte, conseguir um assento
livre. E vejam só: a missão toda foi cumprida. Sentado ao lado de outro
sonolento passageiro, Everton consegue botar os fones no ouvido para tentar
relaxar e se distrair com um roquenrouzinho sem graça. Entre uma sacolejada e
outra, aliás, várias delas, o que, inclusive, provocou a queda de um senhor em
seu colo, causando constrangimento a todos; o Ônibus chega à porta da Repartição.
Desce do Ônibus. Mas antes fosse uma tarefa fácil desembarcar;
foram necessárias várias cotoveladas, empurrões e gritos para que o motorista
mantivesse a porta de saída aberta, pois era difícil e demorado se livrar dos
outros passageiros que empanturravam o busão.
Alívio. Essa é uma palavra bastante adequada para o
dia-a-dia de Everton ao sair do Ônibus. Mas nesse dia ele não podia se dar ao
luxo de gozar desse alívio. Prontamente se dirigiu à Repartição, bateu o Cartão
Ponto e sentiu-se contemplado por não ter que topar com seu Coordenador até
então. Dirigiu-se à sua mesa sorrateiramente, pois eram exatos 40 minutos de
atraso, e ali levou o último susto do dia. A caixa estranha e sinestésica
estava em cima de mesa, alinhada e estática, bem à sua frente. Fitou-a melhor e
percebeu dentro dela um rascunho legível de uma composição musical, que há
tempos estivera pensando em criar. Lá estava o rascunho, todo completo, cifrado,
com partituras e detalhes que só ele entenderia e poderia, em pouquíssimos
minutos, executar e se deliciar. Não pensando duas vezes, sentou-se à mesa e
foi metendo a mão na caixa, sem deixar de perceber a mesma mensagem engraçada,
antes vista, em seu rótulo: BOM DIA! SORRIA!
E pasmem, infelizmente dessa vez Everton não experimentou
sinestesia alguma, aliás, não experimentou nada. Pior que isso, a caixa começou
a sumir tão esquisita e misteriosamente quanto a experiência sinestésica em seu
apartamento. E isso foi rápido o suficiente a ponto de Everton não conseguir
salvar nada. Isso mesmo caro leitor, todos os projetos, sonhos e objetivos de
vida que Everton tivera até então, foram sumindo e desaparecendo, caindo no
esquecimento. Então, quando menos percebeu, no lugar da caixa restou apenas um
singelo sulfite A4 com a seguinte sentença em letras garrafais:
O TRABALHO DIGNIFICA O HOMEM.
Mais uma vez frustrado, Everton ergue a cabeça, se recompõe
da perda e avista seu Coordenador vindo em sua direção. O desgraçado apontava e
cutucava discretamente seu Rolex falsificado, esboçando um sorrisinho cínico,
que, só quem trabalha conhece. Ao chegar diante de Everton, mantendo o maldito
sorriso, o saúda:
- Bom dia Everton. A gente precisa ter uma conversinha. (autor: Walter H. Diesel)

Argh.
ResponderExcluirate que um dia tudo mudou, uma caixinha bonita ele criou e o sentido da vida ele encontrou. Os seus sonhos ele realizou, mas lutou.
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